Retrospectiva 2017 – parte 3

Confiram a última parte da retrospectiva 2017:

  • Guerra civil na Síria e no Iêmen e a queda do ISIS

Os conflitos no Oriente Médio tiveram novos desdobramentos em 2017. Três principais pontos se destacam aqui: a guerra civil na Síria, a guerra civil no Iêmen e a a retomada de cidades que estavam nas mãos do ISIS.

A guerra na Síria completou o seu sexto ano de conflito deixando um saldo de mais de 500.000 mortos e milhares de refugiados que fugiram para países vizinhos como Líbano e Jordânia, mas também para a Europa e até ao Brasil.

No tabuleiro de xadrez que a Síria se tornou, países se colocam em lados opostos do conflito, seja no campo militar quanto no diplomático. Bashar al-Assad ainda se mantém no controle principalmente pelo apoio que recebe da Rússia e do Irã. Por outro lado, EUA, Turquia e Arábia Saudita se opõem à sua permanência no poder.

Em abril, um novo ataque de armas químicas foi perpetrado contra a população e o governo Assad foi o principal acusado, embora ele negou e culpou terroristas pelo feito. Pouco tempo depois, a administração Trump bombardeou uma base militar síria, em resposta ao ocorrido o que gerou reações de apoio e protestos por todo o mundo. Já em novembro, uma nova rodada de negociações para resolver o conflito proposta pela ONU foi iniciada. Porém, ainda não se vê um fim para o conflito sírio.

Outro confronto pouco falado, mas que se figura como a pior crise humanitária recente é a guerra no Iêmen. Este conflito evoluiu depois do fracasso na transição de poder entre o presidente deposto na Primavera Árabe, Abdullah Saleh, e seu vice, Abdu Hadi. De lados opostos está uma coalizão sunita de apoio a Hadi com liderança da Arábia Saudita contra os rebeldes hutis xiitas que contam com o apoio do Irã.

iemen
Fonte: Transconflict

A escalada do conflito bem como o bloqueio no país imposto pela coalizão sunita gerou consequências para a população que sofre tanto com os bombardeios quanto com as dificuldades de obter ajuda humanitária. Alimentos, remédios entre outras assistências não conseguem chegar até a população, resultando na pior crise de fome da atualidade, além da propagação de uma epidemia de cólera pelo país.

Uma negociação entre as partes parece muito distante de ocorrer em um futuro próximo, principalmente depois que o ex-presidente Saleh foi morto por rebeldes hutis em dezembro por ser considerado um “traidor” ao sugerir um diálogo com a coalizão sunita.

O ano de 2017 também foi marcado pela perda de várias cidades importantes para o ISIS que até então estavam em seu controle. Desde 2015, o grupo terrorista vinha perdendo territórios no Iraque e na Síria, sendo que tal processo se intensificou em 2017 quando perderam dois de seus redutos-chave: as cidades de Mossul e Raqqa.

Em julho, a cidade iraquiana de Mossul foi oficialmente considerada livre do ISIS, mas não antes de uma longa batalha que perdurou por aproximadamente 9 meses. Por várias ocasiões, foram relatados casos de mortes entre os civis que ficaram na linha de fogo entre o ISIS e as forças armadas iraquianas. Muitos deles foram feitos de escudos humanos pelo grupo terrorista e impossibilitados de fugir, enquanto outros foram mortos em bombardeios do exército que focavam em destruir o ISIS. Com o fim da batalha e a cidade ainda em ruínas, os moradores procuraram aos poucos voltar para suas vidas.

raqqa
Fonte: The New Yorker

Já em outubro foi a vez de Raqqa, cidade localizada na Síria e considerada a capital do califado, ser retomada das mãos do ISIS pelas Forças Democráticas Sírias. Somente depois de 4 meses de confrontos foi possível recuperar a cidade que também estava totalmente destruída deixando para trás um saldo de mais de 3.000 mortos. Atualmente, o ISIS perdeu muito do que controlava inicialmente, se limitando a uma pequena porção de território entre Iraque e Síria.

  • Arábia Saudita: novo rei e implicações regionais

O ano de 2017 foi marcado pela “dança das cadeiras” do poder na Arábia Saudita, quando em junho o então rei Salman, que assumiu o trono em 2015, renunciou em favor do seu filho, Mohamed bin Salman (MBS) de 31 anos.

Inicialmente o segundo na linha de sucessão, MBS conseguiu alcançar o trono ao concentrar grande poder e influência em seu entorno, isolando o então príncipe-herdeiro Mohammed bin Nayef. Em sua carreira, inclui cargos como Ministro da Defesa, vice-primeiro-ministro, assessor especial do rei e presidente do Conselho dos Assuntos Econômicos e de Desenvolvimento.

A chegada de MBS ao trono da Arábia Saudita trouxe com certeza novos ares tanto para o país quanto para a região com implicações vistas tanto positivas quanto negativamente.

MBS
Fonte: CNBC

Por um lado, Mohamed bin Salman é conhecido por ter um caráter mais reformista implementado mudanças até então inéditas em seu país como ao propor a venda de uma pequena parcela da petrolífera saudita Aramco na bolsa de valores ou a permissão dada às mulheres para dirigir, algo até então proibido na Arábia Saudita. Além disso, também criou uma comissão anticorrupção no país que deteve ministros e inclusive membros da família real.

Já por outro lado, MBS é considerado uma figura polêmica, principalmente quando se trata de sua postura na geopolítica regional do Oriente Médio. Como Ministro da Defesa, foi responsável pelas operações militares sauditas na guerra civil do Iêmen, o que envolve o cerco realizado no país e que consequentemente resultou na crise humanitária enfrentada atualmente no seu vizinho.

Além disso, foi acusado de interferir na política interna do Líbano o que quase significou na renúncia do primeiro-ministro do país. Por fim, MBS se posiciona abertamente contra o Irã, o que indica relações mais tensas na região nos próximos anos entre estas duas potências na região.

  • Irã: acordo nuclear e protestos contra o regime

O Irã passou por dois acontecimentos que ainda podem causar um considerável desequilíbrio seja para o próprio país quanto para o Oriente Médio.

A primeira questão se refere ao acordo nuclear, firmado entre os EUA e o Irã juntamente com os demais membros permanentes do Conselho de Segurança e a Alemanha, em que previa o fim das sanções aos iranianos em troca do cumprimento de que tal programa seria apenas para fins pacíficos.

Considerado um marco do governo Obama, o acordo é abertamente criticado por Trump desde a campanha eleitoral e em 2017 ele manteve sua postura. Em outubro, não somente Trump se recusou a certificar o acordo nuclear como afirmou que o Irã não estava cumprindo seus termos de fato. Isto por si só não anula o que foi acordado em 2015, mas com certeza lança grande incerteza com relação à sua continuidade.

Ira
Fonte: Washington Post

Já no fim do ano, protestos surgiram por diversas cidades no Irã. Inicialmente, as manifestações ocorreram devido à situação econômica do país, bem como uma alta nos preços da comida e do combustível, além da corrupção. Muitos iranianos acreditavam que com o fim das sanções em 2015 por causa do acordo nuclear as condições econômicas do país iriam melhorar, o que acabou não se concretizando.

Desta forma, os protestos escalaram juntamente com a repressão das forças policiais, resultando em vários feridos e mortos. Com o aumento da tensão, muitos manifestantes começaram a pedir pela renúncia tanto do presidente Hassan Rouhani quanto do líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei. Estes protestos, que começaram no fim do ano, ainda se mantêm em janeiro de 2018 e sua continuação pode gerar ainda muitas consequências para este ano que se inicia.

  • O status de Jerusalém

Já quase no final de 2017, um acontecimento balançou o sistema internacional. Trump cumpriu uma de suas promessas de campanha e declarou oficialmente que os EUA reconheciam Jerusalém como a capital de Israel.

O gesto foi amplamente divulgado no mundo gerando reações tanto contra quanto a favor da decisão. Dentre alguns dos favoráveis estavam o primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu e os presidentes da Guatemala e Honduras. Por outro lado, a Mahmoud Abbas da Autoridade Palestina, países da região como Arábia Saudita e Irã e até mesmo Inglaterra e França se opuseram à decisão do presidente americano.

Um dos principais argumentos veiculados foi de que esta atitude causaria instabilidade na região e que o status de Jerusalém deveria ser fruto de negociações conjuntas entre israelenses e palestinos. Vale ressaltar ainda a postura de Rússia e China que declararam a possibilidade de reconhecer Jerusalém Ocidental como capital de Israel enquanto Jerusalém Oriental seria a da Palestina.

Jerusalem
Fonte: BBC

No âmbito da ONU, uma resolução proposta pelo Egito no Conselho de Segurança para que o status histórico de Jerusalém não se alterasse foi vetado pelos EUA. Com isso, Iêmen e Turquia entraram com um requerimento para uma sessão extraordinária na Assembleia Geral no final de dezembro. O resultado daquela votação mostrou uma massiva oposição à decisão americana com 128 países votando contra, apesar da ameaça vinda da embaixadora americana na ONU, Nikki Haley, de que os EUA se lembrariam de que votou contra.

A mudança da embaixada americana de Tel Aviv para Jerusalém ainda vai levar algum tempo, mas outros países como a Guatemala disseram que vão seguir os mesmos passos. Apesar de que o tempo exato da mudança ainda não é certo, com certeza tal decisão afetará os futuros desdobramentos não somente para israelenses e palestinos como para toda a região.

 

Espero que tenham gostado dessa retrospectiva! Digam o que acharam nos comentários! 🙂 Até a próxima!

Fontes:

http://g1.globo.com/jornal-hoje/noticia/2017/03/entenda-guerra-na-siria-que-completa-seis-anos-nessa-quarta-15.html
https://g1.globo.com/mundo/noticia/veja-o-que-sera-discutido-nas-negociacoes-de-genebra-sobre-a-siria.ghtml
http://www.bbc.com/portuguese/internacional-42234853
https://www.dn.pt/mundo/interior/isis-perde-raqqa-e-fica-reduzido-a-uma-faixa-entre-siria-e-iraque-8851468.html
https://g1.globo.com/mundo/noticia/primeiro-ministro-iraquiano-proclama-vitoria-contra-estado-islamico-em-mossul.ghtml
http://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2017-03/onu-deplora-mortes-de-civis-no-oeste-de-mossul
https://oglobo.globo.com/mundo/entenda-importancia-de-raqqa-principal-reduto-do-ei-na-siria-21955072
https://qz.com/1104874/a-visual-tour-of-the-price-raqqa-paid-for-its-freedom-from-isil/
https://gauchazh.clicrbs.com.br/mundo/noticia/2017/06/filho-do-rei-da-arabia-saudita-mohamed-bin-salman-e-nomeado-herdeiro-aos-31-anos-9821453.html
https://g1.globo.com/mundo/noticia/mohammed-bin-salman-um-reformador-com-mao-de-ferro.ghtml
https://www.cnbc.com/2017/10/26/aramco-clouds-saudis-coming-out-party-commentary.html
https://g1.globo.com/mundo/noticia/donald-trump-diz-que-ira-violou-regras-e-nao-certifica-acordo-nuclear.ghtml
http://edition.cnn.com/2017/12/30/world/iran-protests-issues/index.html
https://www.washingtonpost.com/world/more-than-1000-detained-in-crackdown-against-iran-protests-rights-groups-say/2018/01/04/0fe62760-f0df-11e7-95e3-eff284e71c8d_story.html?utm_term=.cb9c3836b9b4
http://www.bbc.com/news/world-middle-east-42246564
https://g1.globo.com/mundo/noticia/veja-repercussao-do-reconhecimento-de-jerusalem-como-capital-de-israel-por-trump.ghtml
https://brasil.elpais.com/brasil/2017/12/21/internacional/1513856371_750646.html

 

 

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